O Que Fazer em Caso de Acidente: Passo a Passo

Motorista ao telefone após acidente de carro em via pública, veículo com danos visíveis ao fundo

O impacto acontece em frações de segundo. O que vem depois — os próximos dois, cinco, dez minutos — pode determinar se uma vida é salva, se você responde criminalmente ou se consegue ser ressarcido pelo seguro.

O problema é que a maioria dos motoristas brasileiros nunca parou para pensar nisso antes de precisar. E quando o momento chega, o estresse, o susto e a confusão tomam conta. Agir errado nessa hora tem consequências sérias: multas pesadas, processos criminais, perda do direito ao seguro — e, nos casos mais graves, vidas perdidas por falta de socorro.

Este guia foi escrito para ser salvo no seu celular agora, quando você ainda não precisa dele. Porque o que fazer em caso de acidente não é algo para aprender no meio do caos.


O Cenário Que Pode Acontecer com Qualquer Um

Os números são difíceis de ignorar. Só nas rodovias federais brasileiras, em 2025 a Polícia Rodoviária Federal registrou 72.483 sinistros de trânsito e 6.044 mortes — uma leve redução em relação a 2024, mas ainda assim uma média de mais de 16 ocorrências por dia.

E isso é só nas BRs. Nas vias estaduais, municipais e urbanas, os números são muito maiores.

Você pode ser um motorista cuidadoso, responsável, que respeita todas as regras. Mas nem sempre é o seu comportamento que decide. Em 2024, a desatenção foi responsável por 42% das ocorrências — e a maioria das vítimas não causou o acidente em que se envolveu.

Saber o que fazer é, portanto, uma questão de proteção — sua e de quem está ao seu redor.


Antes de Tudo: A Regra de Ouro

Existe uma sequência lógica para agir em um acidente, e ela serve tanto para ocorrências simples (uma batida leve sem feridos) quanto para as mais graves. Cada passo tem um motivo.

A ordem importa. Veja:

Segurança → Socorro → Sinalização → Registro → Comunicação

Não pule etapas. Não inverta a ordem. Abaixo, cada uma delas explicada em detalhe.


Passo 1: Garanta a Sua Segurança Imediatamente

O primeiro instinto de muita gente após um acidente é sair do carro rapidamente e correr para ver o que aconteceu. Isso pode ser fatal — especialmente em rodovias.

Antes de qualquer coisa:

  • Ligue o pisca-alerta do seu veículo assim que parar
  • Não saia do carro no meio da pista sem verificar se o trânsito ao redor está controlado
  • Mova o veículo para o acostamento, se ele tiver condições de se locomover — deixar o carro no meio da via é infração de trânsito (art. 176 do CTB) e pode gerar um segundo acidente
  • Se o carro não se mover, permaneça dentro com o cinto afivelhado até o trânsito ao redor estar seguro
  • Se precisar sair, fique atrás do guard-rail ou de alguma barreira física. Nunca fique entre o seu veículo e o fluxo de carros

⚠️ Atenção especial em rodovias: Em estradas com alta velocidade, um acidente secundário — causado por outro veículo que não viu a ocorrência — pode ser ainda mais grave do que o original. Sinalizar e se proteger é prioridade absoluta.


Passo 2: Verifique se Há Feridos

Com segurança garantida, verifique imediatamente se há pessoas feridas — dentro do seu carro e nos outros veículos envolvidos.

Se houver feridos:

O Código de Trânsito Brasileiro impõe deveres expressos ao condutor: prestar ou providenciar socorro, evitar novos perigos, preservar o local e cumprir determinações da autoridade. Deixar de agir pode gerar infração gravíssima (administrativa) e crime (penal).

Os números de emergência que você precisa ter salvos agora:

SituaçãoNúmero
Atendimento médico (SAMU)192
Resgate, incêndio, ferragens193 (Bombeiros)
Vias municipais e estaduais190 (Polícia Militar)
Rodovias federais (BRs)191 (PRF)

Enquanto espera o socorro:

  • Não mova feridos — especialmente se houver suspeita de lesão na coluna. Mover uma vítima sem treinamento pode causar danos irreversíveis
  • Se a vítima estiver inconsciente mas respirando, não a mova
  • Se houver sangramento, aplique pressão com um pano limpo ou gaze diretamente sobre a ferida
  • Proteja as vítimas do frio ou calor sem movimentá-las e aguarde o atendimento especializado do SAMU ou Corpo de Bombeiros
  • Não remova o capacete de motociclistas — isso deve ser feito por profissionais de saúde

💡 Importante: Quem presta pronto e integral socorro não sofre prisão em flagrante nem exigência de fiança por conta do sinistro, conforme o art. 301 do CTB. Isso existe justamente para estimular o socorro. Em outras palavras: prestar socorro te protege legalmente, além de ser a coisa certa a fazer.


Passo 3: Sinalize o Local do Acidente

Enquanto o socorro não chega, você precisa alertar os outros motoristas sobre o que aconteceu à frente. Essa etapa salva vidas — e sua omissão pode gerar uma tragédia em cadeia.

  • Posicione o triângulo de sinalização a pelo menos 30 metros atrás do veículo
  • Para que a visualização do triângulo seja mais fácil, a regra é calcular 1 metro de distância para cada km/h permitido na via. Se o limite for 80 km/h, o triângulo deve ficar a 80 metros
  • Em condições de baixa visibilidade (chuva, neblina, noite), dobre essa distância
  • Se houver galhos, arbustos ou outros materiais disponíveis nas margens da via, posicione-os antes do triângulo para reforçar a sinalização

⚠️ Nunca saia do carro em rodovias sem verificar o fluxo de veículos. Posicione o triângulo caminhando pelo acostamento, nunca pela faixa de rolamento.


Passo 4: Colete Informações e Evidências

Com a segurança garantida, o socorro acionado e o local sinalizado, é hora de proteger seus interesses. As evidências colhidas nos primeiros minutos são decisivas para seguros, processos e responsabilização.

O que fotografar:

  • ✅ Posição dos veículos antes de movê-los
  • ✅ Danos em todos os veículos envolvidos (de vários ângulos)
  • ✅ Marcas de frenagem no asfalto
  • ✅ Sinalização da via (placas, semáforos, faixas)
  • ✅ Condições climáticas e de visibilidade
  • ✅ Placas de todos os veículos envolvidos
  • ✅ CNH e CRLV dos outros condutores (foto)

O que anotar:

  • Nome completo, CPF, telefone e endereço dos condutores envolvidos
  • Número da apólice e nome da seguradora de cada veículo
  • Nome e contato de testemunhas (peça que fiquem até a chegada da autoridade, se possível)

O que NÃO fazer:

  • Não assine declarações com as quais não concorda totalmente
  • Não admita culpa verbalmente ou por escrito no local — isso pode ser usado contra você juridicamente
  • Não aceite acordos informais sem registrar o BO antes

Passo 5: Registre o Boletim de Ocorrência (B.O.)

O B.O. é o documento que vai sustentar qualquer processo de ressarcimento, seja pelo seguro, seja judicialmente. Sem ele, você perde direitos importantes.

Quando há vítimas:

A Polícia Militar ou a PRF comparece ao local e o B.O. é feito na hora pela autoridade. Não abandone o local antes disso — isso configura crime de fuga para evitar responsabilidade.

Quando não há vítimas:

Você tem mais opções:

Em rodovias federais (BRs): Faça a Declaração de Acidente de Trânsito (e-DAT) pelo serviço online da PRF. Basta informar a rodovia (BR), o km e o horário, além dos dados dos veículos e condutores.

Em vias urbanas e estaduais: A maioria dos estados já oferece Boletim de Ocorrência online pelo site da Polícia Civil estadual. Verifique o portal do seu estado — a maioria tem essa opção disponível 24 horas.

💡 Dica prática: Mesmo em acidentes pequenos e sem briga entre os envolvidos, registre o B.O. Situações aparentemente tranquilas podem virar processos semanas depois — e o registro protege você.


Passo 6: Acione o Seguro (Se Houver)

Com o B.O. em mãos, contate sua seguradora imediatamente. Quanto antes você acionar, mais rápido o processo de sinistro avança.

Separe antes de ligar:

  • Número da apólice
  • Dados do acidente (data, hora, local, B.O.)
  • Fotos dos danos
  • Dados dos outros envolvidos

⚠️ Importante sobre o DPVAT/SPVAT: O DPVAT, agora chamado de SPVAT, foi revogado pela Lei Complementar 211/2024. Em 2025, não há cobrança desse seguro obrigatório federal. Em caso de sinistro, concentre-se no atendimento às vítimas e, depois, nos seguros privados e nos direitos civis cabíveis.


Passo 7: Acione o Guincho (Quando Necessário)

Se o veículo não tiver condições de circular após o acidente, você vai precisar de um guincho para transportá-lo até uma oficina ou local seguro.

Alguns pontos importantes:

Verifique primeiro se o seguro cobre: a maioria das apólices inclui guincho com franquia de quilometragem. Acionar a assistência da seguradora pode sair de graça — ou custar bem menos do que contratar um guincho avulso.

Se precisar de guincho particular: use uma plataforma confiável para encontrar profissionais avaliados na sua região. O Ache Guincho conecta motoristas a guincheiros qualificados em todo o Brasil, com preços transparentes e atendimento 24 horas.

⚠️ Cuidado com guincheiros que aparecem “espontaneamente” no local do acidente sem você chamar. Essa prática, conhecida como “ambulância chaser”, é comum em rodovias movimentadas e frequentemente resulta em cobranças abusivas. Sempre escolha por conta própria quem vai transportar seu veículo.

Em caso de acidente em rodovia: aguarde o guincho em local seguro, no acostamento ou atrás do guard-rail. Nunca fique próximo ao veículo danificado enquanto o guincho faz o içamento.


Acidente com Vítima Fatal: O Que Muda

Essa é a situação mais grave — e que exige atenção redobrada.

  • Não mova o veículo nem altere nada no local até a chegada da autoridade e da perícia
  • Preserve as marcas de frenagem, posição dos veículos e qualquer evidência física
  • A alteração do local de um acidente com vítima fatal pode configurar crime de fraude processual
  • Deixar de prestar socorro é infração prevista no Código de Trânsito Brasileiro. O artigo 304 considera a omissão de socorro crime, punível com detenção de 6 meses a 1 ano. Já o artigo 177 do CTB considera que o condutor que não prestar socorro à vítima de sinistro comete infração grave, com penalidade de 5 pontos na carteira e multa.

Acidente em Rodovia: Cuidados Extras

Acidentes em estradas de alta velocidade têm particularidades que aumentam o risco. Além de tudo que já foi dito:

  • Se o carro pegar fogo ou houver vazamento de combustível, saia imediatamente e se afaste no mínimo 50 metros
  • Em caso de neblina intensa, ligue o pisca-alerta e as luzes de neblina antes mesmo de sair do carro
  • Se o acidente bloquear a pista totalmente, ligue para 191 (PRF) imediatamente para o controle do tráfego
  • Em trechos de serra ou curva, a sinalização com triângulo precisa ser feita antes da curva, não depois

O Que NUNCA Fazer em um Acidente

Erros cometidos nos primeiros minutos podem ter consequências que duram anos. Evite:

  • Fugir do local — é crime independentemente de quem causou o acidente
  • Mover feridos sem necessidade extrema — pode agravar lesões na coluna
  • Discutir ou confrontar outros envolvidos — o ambiente de um acidente é de alta tensão e situações podem escalar
  • Aceitar o primeiro guincho que aparecer sem verificar quem chamou
  • Assinar qualquer documento sem ler com calma
  • Usar o celular ao volante para ligar — pare o carro antes de fazer qualquer ligação
  • Consumir álcool ou medicamentos após o acidente antes da chegada da autoridade — isso pode ser interpretado como tentativa de mascarar estado anterior

Checklist Rápido: Salve no Celular

Guarde este resumo para emergências:

✅ 1. Pisca-alerta ligado. Carro no acostamento.
✅ 2. Verificar feridos. Ligar 192 (SAMU) se necessário.
✅ 3. Triângulo a 30m+ (1m por km/h do limite).
✅ 4. Fotografar tudo antes de mover os veículos.
✅ 5. Anotar dados dos envolvidos e testemunhas.
✅ 6. Registrar B.O. (presencial ou online).
✅ 7. Acionar seguro com fotos e número do B.O.
✅ 8. Chamar guincho confiável se necessário.

📞 Emergências:
- SAMU: 192
- Bombeiros: 193
- PM: 190
- PRF (rodovias): 191

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Conclusão

Um acidente de trânsito coloca você em modo de reação automática. O problema é que a reação automática raramente é a correta.

A sequência é simples quando você já a conhece: segurança primeiro, socorro imediato, sinalização, coleta de evidências, B.O., seguro, guincho. Cada etapa protege uma coisa diferente — uma vida, um direito, um patrimônio.

Salva esse guia. Manda para alguém que dirige com você. E se um dia você precisar de guincho em uma situação de emergência, já sabe onde encontrar um profissional de confiança: no Ache Guincho.

Porque no trânsito, estar preparado não é pessimismo. É responsabilidade.

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